Terceirização sem limites vai destruir direitos trabalhistas
- 6 de mar. de 2017
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Sob comando do ilegĆtimo Michel Temer (PMDB), a CĆ¢mara dos Deputados pode dar mais um golpe na classe trabalhadora e jogar no lixo, na próxima terƧa-feira (7), a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e todos os direitos trabalhistas. Um acordo de lĆderes da base do governo, na próxima segunda (6), pode garantir a votação do PL 4.302/1998 (Projeto de Lei), enviado ao Congresso pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que trata do trabalho temporĆ”rio e autoriza a terceirização sem limites. Caso seja aprovado na CĆ¢mara, o texto dependerĆ” apenas de sanção presidencial. Em 2003, o ex-presidente Luiz InĆ”cio Lula da Silva propĆ“s a retirada de tramitação do PL, mas o texto ficou engavetado. Ao comando de Temer, a CĆ¢mara ressuscitou o texto, que foi aprovado na ComissĆ£o de Constituição e JustiƧa com relatoria do deputado Laercio Oliveira (SD-SE). Antes, jĆ” havia recebido parecer favorĆ”vel na ComissĆ£o de Trabalho, Administração e ServiƧo PĆŗblico do relator, deputado Sandro Mabel (na Ć©poca PR-GO), assessor especial de Temer no PalĆ”cio do Planalto. Tanto Oliveira quanto Mabel sĆ£o empresĆ”rios, o primeiro, ex-presidente da Federação Nacional das Empresas Prestadoras de ServiƧos de Limpeza Conservação (Febrac), setor em que impera a terceirização, e atualmente ocupa o cargo de vice-presidente da Confederação Nacional do ComĆ©rcio (CNC). A arapuca armada pela CĆ¢mara ataca em duas frentes: atualmente, a legislação permite que o temporĆ”rio seja contratado em caso de ānecessidade transitória de substituiçãoā ou āacrĆ©scimo extraordinĆ”rio de serviƧosā. Caso em que o trabalhador Ć© afastado por licenƧa ou no comĆ©rcio durante o Natal, portanto, em carĆ”ter excepcional. Atualmente, os temporĆ”rios devem ter asseguradas as mesmas condiƧƵes dos empregados permanentes da empresa tomadora de serviƧo em pontos como fĆ©rias, repouso semanal remunerado, adicional por trabalho noturno, indenização por dispensa sem justa causa ou tĆ©rmino normal do contrato. Reforma de fato Na prĆ”tica, o texto defendido por Temer e aliados propƵe a reforma trabalhista que desejam e pƵe por terra a legislação atual. O PL elimina o carĆ”ter āextraordinĆ”rioā da contratação ao aumentar a permissĆ£o do trabalho temporĆ”rio para seis meses, com possibilidade de atĆ© mais 90 dias, eliminando, portanto, o conceito de temporĆ”rio. O temporĆ”rio tambĆ©m nĆ£o terĆ” direito Ć multa de 40% sobre o FGTS e ao aviso prĆ©vio em casos de demissĆ£o sem justa causa. AlĆ©m disso, autoriza a implementação na atividade-fim da empresa, a principal, e nas atividades rurais. Na prĆ”tica, a terceirização sem limites, o que permitirĆ” a existĆŖncia de empresas sem trabalhadores diretamente vinculados. Atualmente, apenas Ć© permitida a terceirização em atividades de apoio como limpeza e alimentação. Nessa relação entre patrƵes e trabalhadores, a responsabilidade deixa de ser solidĆ”ria e passarĆ” a ser subsidiĆ”ria. No primeiro modelo, a empresa contratante paga os direitos e salĆ”rios devidos pela terceirizada, caso esta desapareƧa e deixe o trabalhador na mĆ£o, caso muito comum nessa forma de contratação. No segundo caso, o empresĆ”rio só pagarĆ” se a JustiƧa assim determinar após longa batalha jurĆdica. Traidores Para a secretĆ”ria de RelaƧƵes do Trabalho da CUT, Maria das GraƧas Costa, a tramitação do projeto Ć© uma traição por parte dos parlamentares e representa o desprezo total pela democracia. āEm dezembro fizemos conversa com o Rodrigo Maia (presidente da CĆ¢mara) e com o Eunicio Oliveria (presidente do Senado) que se comprometeram em nĆ£o colocar em votação o PL 4302 e disseram ser contra terceirização na atividade-fim. SĆ£o traidores, inclusive da democracia, porque nĆ£o respeitaram as audiĆŖncias pĆŗblicas organizadas pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que levou a discussĆ£o sobre o PLC 30 ā leia mais abaixo - a todo o paĆs e ouviu por unanimidade, a rejeição Ć terceirização na atividade-fimā, falou. Para a tĆ©cnica do Dieese (Departamento Intersindical de EstatĆstica e Estudos SocioeconĆ“micos) Adriana Marcolino a medida Ć© um tiro no pĆ© em Ć©poca de crise. āOs empresĆ”rios utilizavam o argumento de que a terceirização serviria para a empresa se dedicar Ć atividade principal, mas se ela ocorre na atividade-fim, a justificativa passa a ser somente o lucro em detrimento dos direitos e condiƧƵes dignas de trabalho. Os trabalhadores serĆ£o substituĆdos por outros que ganharĆ£o menos, terĆ£o menos direitos e trabalharĆ£o mais. Isso nĆ£o gera emprego e ainda resulta em piores serviƧos, pior qualificação e mais acidentes e doenƧas que serĆ£o pagas pelo serviƧo pĆŗblico custeado pela sociedadeā, aponta. Resposta Diante deste cenĆ”rio, a CUT e membros da Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Classe Trabalhadora, o Fórum em Defesa dos Trabalhadores AmeaƧados pela Terceirização e o Fórum Interinstitucional de Defesa do Direito do Trabalho e da PrevidĆŖncia Social se reĆŗnem na próxima terƧa-feira, Ć s 9h30, no PlenĆ”rio 14 da CĆ¢mara para discutir os ataques aos direitos trabalhistas e visitar os gabinetes de lĆderes partidĆ”rios. Ćs 14h, uma audiĆŖncia pĆŗblica na ComissĆ£o Especial da Reforma Trabalhista tambĆ©m tratarĆ” do tema. A Central tambĆ©m promoverĆ” uma mobilização na próxima semana nos gabinetes dos parlamentares para alertar que serĆ£o punidos nas urnas em 2018 caso imponham esse assalto Ć classe trabalhadora āNĆ£o hĆ” outro caminho a nĆ£o ser impedir que esses inimigos da classe trabalhadora trabalhem na surdina. E só vamos fazer isso se mostrarmos Ć sociedade como estĆ” sendo roubadaā, define GraƧa. PLC 30 Antes do PL 4.302 entrar em pauta, a CUT e representantes dos movimentos sindical e sociais lutaram contra o PLC 30/15 tem origem no PL 4330/2014 (Projeto de Lei), de autoria do ex-deputado federal Sandro Mabel (PR-GO), aprovado na CĆ¢mara por 324 votos favorĆ”veis contra 137 e duas abstenƧƵes. Antiga reivindicação dos empresĆ”rios para afrouxar a legislação trabalhista, o texto aprofunda um cenĆ”rio nocivo Ć” classe trabalhadora. Segundo o dossiĆŖ āTerceirização e Desenvolvimento, uma conta que nĆ£o fechaā, lanƧado em fevereiro deste ano pela CUT e pelo Dieese (Departamento Intersindical de EstatĆstica e Estudos SocioeconĆ“micos), os terceirizados ganham 25% menos, trabalham quatro horas a mais e ficam 2,7 anos a menos no emprego quando comparados com os contratados diretos. Favorece ainda situaƧƵes anĆ”logas Ć escravidĆ£o. O documento aponta que, entre 2010 e 2013, entre os 10 maiores resgates de trabalhadores escravizados, nove eram terceirizados.




